Hoje eu ouvi Pink Moon (1972), do Nick Drake — um álbum que está na lista dos 1001 Álbuns para Ouvir Antes de Morrer. Resolvi escrever esse review no ritmo em que fui ouvindo o disco, sem pausar pra organizar demais as ideias, porque a experiência pede esse tipo de fluxo.
A primeira música do disco, também intitulada “Pink Moon”, é simples: voz e violão, e lá no fundo o que acredito ser um violoncelo. A música é arranjada a partir de um único violão, tocado só com acordes, e a letra também é curta. Dá pra sentir a qualidade da gravação da época em comparação com as de hoje: a voz soa menos cristalina (médias-altas menos acentuadas), mas é fácil apontar isso pela modernidade da equalização atual — e o álbum é de 1972. Inclusive, essa primeira faixa me passou uma vibe de Clube da Esquina, só que mais crua.
E o álbum segue majoritariamente nessa pegada.
A música seguinte, “Place to Be”, me pegou profundamente. Vejo como uma dualidade entre nosso eu mais jovem e nosso eu atual: antes, a verdade amarga não era tão visível (talvez pela ingenuidade), hoje ela se escancara e pesa. O fato de ser só voz e violão deixa tudo mais íntimo, quase como um relato passado de pai pra filho.
Em “Road” já aparece um dedilhado mais presente, então a profundidade melódica cresce. Não é um riff, mas guia a sensação com mais ênfase que o acorde. A frase “Eu posso pegar uma estrada que enxergarei através de mim” bateu forte: a percepção de que podemos ser o que quisermos no momento em que decidimos. Temos um papel indefinido e mutável na peça da vida. Foi isso que fez a música fazer sentido pra mim.
O dedilhado de “Which Will” é o mais bonito até agora. Ele tem um hammer-on que eu particularmente acho lindo — dá uma vibe folk, como se fosse uma história que atravessou o tempo e agora está sendo contada de novo. Não entendi completamente se ele fala de um apelo espiritual a uma deidade ou de um amor platônico. Menção honrosa pros acordes puxados no meio do dedilhado, quase um fingerstyle. Vou salvar pra fazer um sample — adoro sample de violão.
O violão de “Things Behind The Sun” tem uma levada rítmica que me lembrou “Ela Vai Voltar”, do Charlie Brown Jr. Tô louco? Fui checar: 103 BPM no Nick, 105 no CBJr. Coincidência da minha mente levemente perturbada.
Essa estrofe me pegou:
“Olhe ao redor e você encontrará o chão
Não está tão longe de onde você está, mas não seja tão sábio
Lá embaixo, eles nunca crescem
Eles estão sempre cansados e o encanto foi tirado de seus olhos
Nunca surpresos”
Pra mim fala de gente que não reconhece a própria ignorância, não busca crescer, só reage. E que não vale a pena o sábio se esgotar tentando mudar quem já escolheu a inércia. Parei a música na metade pra elogiar o violão do Nick: ele não só expressa, ele traz complexidade e profundidade no dedilhado sem soar repetitivo. É virtuoso.
E quando ele canta:
“Sim, é hoje
E mostre os hinos que você esconde
Você terá reconhecimento enquanto as pessoas fecham a cara
Sobre coisas que você diz
Mas fale o que você quer dizer”
Eu leio como: pessoas sorriem enquanto você batalha, mas fecham a cara quando você vence. Mesmo assim, fala o que você quer dizer. Faz tua música.
E “as pessoas que rondam sua cabeça, que dizem tudo que foi dito” me soa como quem repete fórmulas, compõe sempre sobre as mesmas coisas, no fim não diz nada.
A voz do Nick aqui parece uma lição.
Em “Parasite” o clima pesa.
“Levantando a máscara de um palhaço da cidade local / Sentindo-se deprimido como ele…” parece falar de alguém que faz os outros se sentirem bem, mas afunda por dentro — talvez em ilusão, talvez em drogas. A progressão harmônica dessa música é muito inteligente: o violão já cria o cenário emocional antes da letra contar a história.
“Pois sou o parasita desta cidade” me bateu forte: não caber no lugar onde você nasceu, não se identificar com a mentalidade ao redor.
“Mudando a corda para um tamanho bem pequeno” soa como gente diminuindo a própria vida por comodismo.
“Free Ride” tem uma intro que é a cara de um sample. A mudança de ritmo no meio da música é sutil, mas notável.
Em “Harvest Breed” senti alguém caindo no fundo do poço e, justamente por isso, ficando pronto pra subir. A queda precedendo a evolução. O segredo do sucesso é o fracasso. Nick menciona várias vezes o “chão”, e eu interpreto como origem, base, de onde se veio — e subir como ascender. Ou talvez seja tudo metáfora pra morte e transcendência.
O sotaque dele bugou minha percepção da voz, mas isso vira charme. Ele não é o maior cantor tecnicamente, mas é sábio. Precisei reler as letras em micro e macro pra sacar melhor.
O breve solo de “Horn” tem um charme absurdo: as notas agudas soando junto das graves dão a sensação de dois violões. A equalização valoriza as agudas; pela força da corda, parece muito coisa de terceira corda.
Não me surpreenderia se ele tivesse gravado tudo praticamente direto, sem muitas pausas. Um músico com essa intimidade com o instrumento deve conseguir isso — e eu o invejo (positivamente).
Duas observações finais:
Existe uma generalização das músicas do Nick Drake como “outonais”, e faz sentido. Canções outonais falam de transição, nostalgia, amadurecimento, esse clima de entre-estação. Não sei por quê, mas isso me lembra The Smiths.
O som do disco também me lembrou Acabou Chorare, dos Novos Baianos, por causa dos acordes com notas adjacentes (clusters). Ambos são de fevereiro de 1972 — coincidência?
Clusters no violão são acordes formados por notas vizinhas, criando uma sonoridade mais densa, dissonante e sofisticada, comum no jazz e na MPB.
Pesquisei um pouco mais: é um álbum essencialmente acústico.
E talvez seja exatamente por isso que ele bate tão fundo.






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