Em mais um episódio dos meus Reviews Musicais, dessa vez eu ouvi All Things Must Pass (1970), de George Harrison — o único álbum solo dele presente na lista dos 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer. E confesso: comecei esse disco assumindo que sei menos sobre o George do que sobre John, Paul ou até Ringo.
Primeiro impacto: 1 hora e 45 minutos. É praticamente uma declaração de independência em forma de álbum triplo.
A voz do George soa familiar — inevitável lembrar dos Beatles — mas aqui existe algo diferente: liberdade. Há quebras de ritmo e expansões sonoras que eu não percebia tanto nas composições da banda. Parece uma ramificação do rock britânico, agora com espiritualidade explícita.
“My Sweet Lord” já deixa isso claro. A entrada inesperada da pandeirola, os corais de “Hallelujah” e depois “Hare Krishna” mostram que George não impõe limites à fé. Enquanto John questionava Deus em Imagine, George aqui declara que quer vê-lo. Sabendo que ele mergulhou na espiritualidade hindu, tudo faz sentido.
“Wah-Wah” traz camadas de guitarras com distorções diferentes que não se atropelam: base, slide, apoio. Há densidade, mas sem exagero — ainda existe aquele senso beatle de equilíbrio. O título faz referência tanto ao pedal quanto à “dor de cabeça”, e a música soa como um desabafo contra a falsidade que cercava os Beatles nos últimos anos.
“Isn’t It a Pity” me pegou imediatamente pela progressão harmônica. Os acordes me atraíram como um ímã. A letra carrega mágoa — talvez por músicas engavetadas, talvez por ressentimentos acumulados. O órgão adiciona densidade, mas quando o solo entra, é impossível não ser fisgado. A guitarra de George é espada e escudo. Ele impressiona com simplicidade e classe: uma nota, uma distorção, tudo milimetricamente pensado.
“What Is Life” prova como a simplicidade pode ser genial: guitarra e baixo fazem o mesmo desenho na introdução, enquanto a bateria segura o contratempo. Algo que às vezes eu sentia falta nos Beatles — tensão e repouso mais explícitos — aparece aqui tanto no micro (dentro das músicas) quanto no macro (no álbum inteiro).
O disco não é só espiritual nem só romântico. Ele flutua.
Em “Let It Down”, a introdução é magnética, quase cinematográfica. Eric Clapton participa nas guitarras, os metais entram com força, o refrão soa como um coral gospel dentro de uma catedral. George aqui mostra que é também um grande diretor musical: sabe quando cada instrumento deve brilhar e quando deve recuar.
“Beware of Darkness” impressiona pela letra atemporal:
“Cuidado com os pensamentos que ficam remoendo dentro da sua cabeça.”
Falar disso em 1970, antes mesmo da popularização do debate sobre saúde mental, mostra o quanto ele estava à frente.
Na faixa-título, “All Things Must Pass”, a mixagem em estéreo é interessante: piano de um lado, violão do outro. A letra é simples e universal — nada dura para sempre. Nem a chuva, nem o sol. Essa música conversa diretamente comigo num momento de baixa. É reconfortante lembrar que tudo passa.
Uma das maiores qualidades de George está nos solos: eles aparecem quando a música precisa, nunca para exibição gratuita. Isso me lembra Tom Jobim. Não é sobre virtuosismo técnico exagerado, é sobre intenção.
“Art of Dying” é explosiva, cheia de distorção e energia — quase antecipando o hard rock que viria depois. Já “Hear Me Lord” soa como uma oração: piano, baixo e coral gospel sustentando um pedido sincero de direção espiritual.
O disco ainda guarda surpresas nas faixas instrumentais finais. “Out of the Blue” é uma aula de tensão e repouso: guitarras dialogam, metais respondem, a bateria muda a dinâmica sem perder o pulso. Não há ego — há construção coletiva.
No fim, percebo que All Things Must Pass é mais do que um álbum solo. É o transbordamento criativo de alguém que tinha muito a dizer e pouco espaço para falar. Aqui, George não é o “Beatle silencioso”. Ele é compositor, guitarrista, diretor musical e buscador espiritual.
E talvez o título diga tudo: tudo passa. Inclusive as fases em que você é subestimado.
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